Monday, October 16, 2006

Acto 1 Cena 2

Durante 15 anos vivi com os meus pais em São João do Estoril. Nunca tive qualquer tipo de relacionamento com o espaço que me rodeava e por isso, para mim, foi sempre importante termos um jardim só nosso. Ali, era o meu mundo. Ali, brincava sozinho horas a fio com os meus irmãos, inventando peças de teatro, jogando às escondidas, brincando com o Rocky, o nosso São Bernardo.
Pensando agora, esses anos foram, sem qualquer dúvida, os anos mais felizes da minha vida. Tinha tudo para ser feliz, tinha os meus pais e os meus irmãos comigo. E, ao fim do dia, fechava-se a cortina para que todo o espectáculo das nossas vidas, voltasse ao palco uma vez mais na manhã seguinte.
Nasci numa terça-feira, eram nove e meia da manhã e durante sete horas não dei descanso aos meus pais. Foi, como mais tarde me disse a minha mãe, "uma luta para sair", enquanto eu lutava para ficar. O meu pai, esperava ansiosamente este momento. Com o cansaço de esperar sete horas por ver uma cabeça sair, por mais pequena que ela fosse, não aguentou e adormeceu com os meus dois irmãos nos braços.

Acto 1 Cena 1

Atravesso Monsanto pela A5 e são agora nove e vinte da manhã. Os carros amontoam-se uns atrás dos outros. Alguns mudando repentinamente de faixa como que pensando que chegam mais depressa por isso...
Hoje chove copiosamente e as ruas estão enlameadas, com as sarjetas cheias de lixo e de folhas de carvalho, secas do Outono que parece ter ficado para trás. As gotas de água batem no vidro e escorrem lentamente, umas puxando outras empurrando-se umas às outras.
Pela janela vejo Monsanto verde com as suas árvores plantadas, e penso que tudo parece artificial. É estranho entrar em Lisboa pelo meio de uma "floresta", por uma auto-estrada que rasga o verde da colina e entra pela cidade justamente pelo meio. Ao longe avisto sombras, alguns ramos parecem mexer-se, mas é apenas o vento que as faz mexer, nada mais.

Todos os dias me parecem iguais. A rotina vai aos poucos minando uma mente criativa, uma mente que quer mais. Sinto-me num coma constante, ou num sonambolismo qualquer do qual quero acordar. Tenho 30 anos e uma vida para viver e estou sozinho.